28 de out. de 2010

COLO

eu me curvo
de braços abertos e abaulados
eu me sento
de cabeça baixa e olhar difuso
eu me guio
no ritmo sereno do que respiro.

eu me tranço rede
para teu sossego
eu me amasso folha
para adormecer tuas aflições.

24 de out. de 2010

Foreign núbia

Se Lucy surgisse me parindo de uma gestação milenar
E me dissesse: "filha, volte ao teu berço"
Nem assim eu voltaria a me postar
debaixo d'árvore para atiçar feitiçaria!

Se tivesse minhas crianças de pele escura e nariz estreito

Ainda que eu quisesse ir para o oeste nascer junto ao Nilo
Terminaria a noite mediterranemente só, ilhada no Egeu, ferida de vida.
Ah, antiga Abissínia! Jah bless! This is not for me.
Antes tivesse ficado com aquela torta que até agora faz saudade no meu estômago!
acho que não temos outras vozes como a de Dolores Duran.
me lembro de alguém tê-la comparado às cantoras americanas de blues e jazz.
ela com seu inglês impecável.

"Aos 16 anos, foi contratada pela Boate Vogue e passou a se chamar Dolores Duran. Nesta fase de shows noturnos, ela conheceu Ella Fitzgerald, que elogiou sua interpretação de 'My Funny Valentine'."*


que comparação o que!
 
Nossa! "Conversa de botequim" com esta mulher faz qualquer sorriso ...
 
!
 
... apesar ser 00:48 horas de 24 de outubro, como ainda não durmi, é dia 23.
e foi num 23 de outubro que Dolores morreu. e eu não sabia, acabo de descobrir.
que susto! que arrepio! corri falar para alguém!
pai, esta falsa-coincidência salvou minha lua cheia.
estes pequenos encontros tão rápidos e aparentemente frágeis alimentam algo mais que a alma.
pôxa vida!
esta sim é uma promiscuidade que vale a pena. o resto é putaria (com todo o peso moral que a palavra traz). 
 
 
 
 
  ainda sim não era sobre isto que eu ia escrever.
 
 

19 de out. de 2010

DESTE MAL NÃO PADEÇO MAIS

como descer do teu colo e mergulhar de novo neste meio de tarde morno e sem brisa?
como ficar assim à merce de teus afagos e da solidez de suas coxas?
como fui me deixar ficar?
porque sair andando por aí sem trazer ao menos, um de teus braços como uma estola de pele nobre por detrás de pescoço, por cima do ombro?
como apagar todas as imagens do teu antebraço com as elevações dos tendões volta e meia esticados, linhas infinitas até teus dedos bonitos. mãos muito me importam, dedos e unhas bonitas.

não trago nada, tudo ficou pelo caminho.
ficam ao longo daquelas estradas artificiais de mil curvas os minutos de você em mim; minha dose de simplicidade absurda.
rasgando-me a existência a anunciação de um vazio sem nome, qual saudade de mãe morta.

sem nomes, tanto tua falta quanto tua presença, percorrem-me o amor-não-feito sem restrições e burocracias, sem bater ponto ou qualquer outra coisa.

mas ainda sim não há Amália Rodrigues
não há Maysa Matarazzo
não há Orfeu, Eurídice ou Vinícius!

de repente não existe nada além da fantasia cavalgando "solitária e fim" tal qual uma amazona de arco em punho, sorriso ameno, "mulata pele escura dente branco"
indo por seu caminho, seguida pelo pensamento
de um amigo de braços sem fim lhe espera até sua volta pela lua cheia
seguindo sua vida, qual pássaro contente, "vai tua vida, estarei contigo"*.

OS MALES É QUE PADECERÃO DIANTE DE MIM




*Versos de e referência ao "Monólogo de Orfeu" de Vinicius de Moraes

17 de out. de 2010

Ultimamente "não posso" ler
Mas é a única coisa que
Quero e Devo fazer.


Porque vai que tanta admiração...
Vai que tanto encantamento e transcendência...
Vai que tanta suspensão das defesas
Aquela vulnerabilidade
Aquele armistício da mediocridade
Vai que a sensibilidade aguçada demais triplica a vitória de futuras feridas?!


Tudo isto para:
Olha só:

"Me deixa conviver
com a certeza da minha
da nossa
Burrice
em não se parear de vez.

Tenho certeza que talvez irá passar"

Allan da Rosa

Trecho do poema "Favor",
na íntegra neste LINK.

"Só numa multidão de amores" - Maysa

é uma da manhã mas não deveria ser.
um fela roubado.
um xilofone and two thousand black.

acabei de descobrir que gosto de xilofone
e que tenho mesmo que providenciar uma t(r)oca de silicone (?) ou me livrar destes cabelos.
altough there's no time for intensive treatment.
think about it!
two thousand black!

descobri-me estrangeira na minha cidade
imigrante de um mundo interrompido
anestesiado na sua própria penumbra
de um alvorecer de cabeça para baixo.

acabei de descobrir que gosto de xilofone
e que este sax é o catéter na minha veia.
"bom é este jazz"
"beijo na bochecha também é"


Teresa,
o primeiro era poeta, sereia de cantos seminais.
forjava os versos de puro ferro do negrume
das gerais.

o segundo era sem rima
puxava o "r" nos extremos da cidade
veio de baobá direto da Faculdade.

o terceiro me falou:
para onde você quer ir?
pega o praça da sé.
mas eu o traí e fui de campo limpo.



o poeta
o professor
o porteiro.


meu primeiro beijo tinha som de "p".
meus últimos amores duraram um dia.
o primeiro dia de verão desta primavera
foi assim uma chuva dezembrina.

são duas horas mas não deveria ser.
algo deveria ter passado junto com o tempo.
não foi, ficou.
pensar o que não se vive não é vida.

mas vai que é assim, uma chuva dezembrina!


"tudo passa"



12 de out. de 2010

Incorporação desativada, mas este é o link do vídeo da Teresa Cristina gravidinha cantando Morada Divina: http://www.youtube.com/watch?v=l74PO2v3s9M&ob=av2n



E este é um trecho do filme "Orixás da Bahia":




Ora yeyeô!

suspiros de limão



que tenha sido a neblina
uma névoa agridoce,
a cegueira das paisagens.

que tenha sido.
e não o é mais.

por mais que forte
já foi
por mais claro
foi impressão.
até agora gravado nos meus desejos
safados e puros.
mas não sobrará nada para frustar (parece nome de picolé de fruta ou suco refrescante).

que tenha sido
e foi.
como tudo vem sendo.
vencendo.
o prazo de vida das frustações parece se esgotar.
a validade das solidões, a sobrevida do ressentimento.

amanhã acordarei cedo como se fosse nadar.
irei à missa e chorarei mais do que hoje
voltarei para casa
lerei aquilo que devo e quero
suspirarei
arrumarei minhas bagunças
e me encontrarei nos meus traços.

seria muita exposição revelar aqui meus planos para um dia de feriado? (depois de mais de dois anos de blog você vem e pergunta isso?!)
ou as minhas dores?
as frustações?
os desejos?
os (des)amores?
omitir uns nomes?
explicitar outros?
mas as projeções para um futuro próximo (como dormir daqui a 15 minutos) não passam de ficções, assim como todos os temas sobre os quais construo os textos.



e quando eu me dou conta a maré já me levou para longe de mim.
longe demais para voltar.
seria de amargurar se não fosse eu meu mar.

preciso ler muito mais.
mas agora vou dormir.

11 de out. de 2010

Carta-poema para meu primo-irmão Paulo Rogério
 (este, nome composto sem hífem,
diferentemente dos outros termos 
compostos deste título.
às vezes só duas palavras dão conta
do sentido de uma relação,
de um sentimento,
de um título de poema,
do nome de um blog,
de um cheiro... às vezes nem isso)

Lembro
Dos teus dedos desenhando
o ninho
e teu olhar era o passarinho
que fora dele ficava.
teu peixe não era de água

mas era nela que você vivia
uma vida toda apertada
nunca cabendo
aquele Além que você queria.

sempre um dia-recomeço
sempre uma nova escova de dentes
sempre um toma jeito rapaz
sempre um novo galo para
acordar tua cabeça machucada.

mas o que foi que você perdeu
que não sossega este juízo?

meu sonho com dragões chineses,
os traços que nunca te fiz...

agora está tudo meio diferente.
eu ando escrevendo muito.

a vida por aqui anda ligeira
muita fralda
leite e mamadeira!
que fome de povoar!

Vejo
Mas este prato de mingau anda estranho
e sobre isto queria muito conversar
uma gana, um medo...
percebi algumas escamas e uma enorme necessidade de voar!


setembro de 2010

10 de out. de 2010

"NUMPIRANÃO, RU!"

não quero ser nada além do que eu já sou.
o que eu sou está bom, vai bem.
aruanda
bom
bem.

esse negócio de movimento retilíneo uniforme
ou uniformemente variado não me vai, não desce nem sobe.
luzes nos túneis,
linhas do tempo.
não, não.

um sistema de desenvolvimento rizóide de movimento circular!
jesus maria josé!
e comoé?!
é bom
bem, aí sim vem.

9 de out. de 2010

Soledad I (morning)

"mi mujercita oscura y clara,
mi corazón, mi dentadura,
mi claridad y mi cuchara"


meu pensamento desencaminhado
meu vazio crônico
meus raios de solidão vazada na tela da peneira


minha evidência nas manhãs torcidas
meus sorrisos nas horas esquecidas
minha constância ébria
minha distância prolongada às chances perdidas


"mi sal de la semana oscura
mi luna de ventana clara"


minha carne continuada
minha carência batizada
minha precisão nomeada
meu nó na garganta
meu pulo no coração
meu fervor nos olhos


"te amo, te amo, es mi canción
y aquí comieza el desatino."
até que este dia acabe.
até que isto tudo desabe
antes do Amor chegar.



*trechos de Cancion del amor, Neruda

6 de out. de 2010

Revisitando um livro, encontro este à lápis na última página:



Página 346

Ai, maiquiquerê
Pra parti o coração
Qui faiz quatro dele
Mas será que essa nóiz cola?
Cola?
Lançando minha sorte
Nas burra destes dias?!



maio de 2010

4 de out. de 2010

Let me Chet you, boy...

uma vontade de escrever mas não tem saído nada.
melhor mesmo tem sido os outros: seus escritos, imagens, sons, as palavras todas.

vi Chet por aí, na internet, depois de muito muito tempo.
dá pra acreditar na suavidade da voz desse cara?
na primeira vez eu não acreditei.
e nas últimas eu já estava enjoada.
agora é outra coisa.









Como diz minha afilhada:
"tá, tá bom
brigada!
té manhã!"